quarta-feira, 8 de junho de 2016

Como o machismo na medicina tem matado as mulheres pouco a pouco



Em seu livro intitulado “O feminismo mudou a Ciência?”, Londa Schiebinger se propõe a discutir por meio de dados fornecidos por áreas como a biologia, a primatologia e a medicina a seguinte questão: “A exclusão de mulheres, das ciências, teve consequências para o conteúdo da ciência?”

Àqueles que se apressam em nesse ponto do texto rebater que a ciência “não tem sexo”, pois “é neutra”, me adianto trazendo as seguintes palavras de Londa:
“Desde o Iluminismo, a ciência agitou corações e mentes com sua promessa de uma perspectiva ‘neutra’ e privilegiada, acima das brigas violentas da vida política. Homens e mulheres, igualmente, responderam ao fascínio da ciência: ‘a promessa de tocar o mundo em seu ser mais íntimo, um toque tornado possível pelo poder do puro pensamento’. O poder da ciência ocidental - sua metodologia e epistemologia - é celebrado por produzir um conhecimento objetivo e universal que transcende as restrições culturais. Com respeito a gênero, raça, e muito mais, entretanto, a ciência não é neutra. Desigualdades de gênero, incorporadas nas instituições da ciência, influenciaram o conhecimento saído destas instituições” (p.205).
Para levar adiante essa discussão, é importante compreender que pesquisadores podem ser tendenciosos de maneira inconsciente ou não intencional, mas são influenciados por questões políticas e sociais ao criar suas categorias de análise. Para ilustrar um pouco disso, vou tentar expor resumidamente alguns aspectos da história da medicina explorados pela historiadora da ciência.

Até meados do século XVIII, pesquisadores acreditavam que o corpo feminino era uma versão inferior do corpo masculino, sendo as únicas diferenças entre os corpos femininos e masculinos os aparelhos reprodutivos e a qualidade inferior do feminino (que era entendido como uma espécie de cópia inferior do corpo masculino).

Após esse período, passou-se a considerar a “diferença sexual” não mais como uma questão resumida às genitálias, mas “que envolvia cada fibra do corpo”. Muitas e muitas décadas de pesquisa se seguiram norteadas pela ideia de papéis sexuais. As pesquisas como um todo buscavam encontrar evidências “biológicas” para justificar os papéis de homens e mulheres na sociedade[1].

Como aponta Londa, “(...) poucos médicos interessavam-se pelas implicações da diferença na assistência à saúde. Na maioria das vezes, o estudo acadêmico de diferenças sexuais era projetado para manter as mulheres em seu lugar”.

No século XIX, em um momento de grandes reinvindicações das mulheres estadunidenses para serem admitidas nas universidades, argumentava-se que a ânsia de mulheres em produzir ciência era a forma mais alta de egoísmo, e essa atitude poderia prejudicar a saúde delas de tal forma que seus ovários poderiam atrofiar (!).
“Embora grande número de estudos tenha sido feito para mostrar que as mulheres não estão à altura dos homens, é surpreendente o quão pouco sabemos acerca dos corpos femininos, quando se trata de manter as mulheres saudáveis” (p. 215).
A autora nos conta que a história da medicina oscilou nesse sentido entre dois paradigmas. O paradigma da igualdade, que considerava os organismos feminino e masculino iguais, teve como consequência o fato de que certos aspectos da saúde das mulheres fossem pouquíssimo estudados, como por exemplo, a relação entre tratamento com estrógenos e problemas cardiovasculares (vejam vocês, isso tem muitíssimo a ver com o que me motivou a escrever esse texto, como vou explicar mais adiante). Já o paradigma da diferença radical resultou em considerar sintomas relatados por mulheres como efeitos “psicossomáticos” com muito maior recorrência do que se registram os sintomas relatados por homens (dito em bom português, “mulher é tudo meio doida e paranoica mesmo... homem não, quando relata algo deve ser coisa séria”).

Na década de 80, diversas feministas se dedicaram a estudar e criticar pesquisas médicas que negligenciavam totalmente os corpos femininos, se baseando em grupos controle compostos unicamente por homens (em um deles, por exemplo, foram estudados 22.071 homens e ZERO mulheres). Os resultados dos testes realizados apenas com indivíduos do sexo masculino eram generalizados para toda a população, e, mesmo sem que se soubesse, por exemplo, o efeito de aspirinas em casos de doenças cardíacas no organismo feminino, mulheres passaram a ser orientadas a tomar uma aspirina por dia (tá dando pra sacar o absurdo?). Esse tipo de negligência com o estudo do organismo feminino, tomando o corpo masculino como referência universal, foi e ainda é responsável por danos seríssimos na saúde das mulheres. 

Uma pesquisa de 1981 sobre estudos a respeito da saúde das mulheres descobriu que havia duas vezes mais pesquisas sobre mulheres relacionadas ao parto e à criação dos filhos do que outros problemas de saúde. Além disso, apesar do foco na saúde reprodutiva, dos mais de 15 institutos do NIH ([Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos) nenhum deles era dedicado à ginecologia e obstetrícia. Dito de outra maneira, temos profissionais dedicados a cuidar da saúde dos bebês, mas não temos profissionais dedicados a cuidar da saúde das mulheres que deram a luz a esses bebês. E mais, a grande maioria dos estudos a respeito da saúde das mulheres naquele momento estava diretamente relacionado a mulher apenas enquanto sujeito que dá a luz, não enquanto um organismo que necessita de cuidados independente de ter (ou querer) ter filhos ou não.

Pois bem, nesse ponto do texto gostaria de registrar um palpite meu: o tratamento médico oferecido às mulheres não mudou tanto assim de lá pra cá. Esse palpite se baseia em diversas experiências que vivenciei pessoalmente, em relatos de diversas outras mulheres que vivenciaram situações semelhantes ou muito piores, e em uma pesquisa constante que tenho me proposto a fazer na literatura médica (de acordo com meu limite de compreensão da linguagem da área). Diversas questões poderiam ser abordadas a partir dessa problemática, mas o que me motivou a fazer essa pesquisa envolve algo mais rotineiro do que se possa imaginar: as pílulas anticoncepcionais. Já adianto que meu objetivo aqui não é dizer que nenhuma mulher, sob hipótese alguma, deva tomar a pílula. Meu objetivo é unicamente explicitar como é perigosa a maneira como a pílula é prescrita indiscriminadamente para as mulheres, expondo-as a uma série de prováveis problemas de saúde.

Aos 13 anos de idade recebi o diagnóstico de Síndrome do Ovário Policístico (SOP) e, como tratamento, recebi a prescrição do uso de pílulas anticoncepcionais. De lá para cá (ou seja, em um período de quase 13 anos) já tomei praticamente todos anticoncepcionais disponíveis na praça (desde o mais fraquinho até o polêmico Diane 35). Já passei em mais de uma dezena de profissionais e nunca durante todos esses anos me pediram qualquer exame que não fosse apenas um ultrassom antes de me prescreverem qualquer um desses remédios. Eventualmente surgia na grande mídia alguma notícia em destaque sobre casos de mulheres que tiveram tromboses ou algum outro tipo de complicação consequente do uso de AC, e quando eu questionava meus médicos a respeito disso, diziam que era uma porcentagem muito baixa de mulheres que passavam por essas tais “reações adversas”, que a pílula era segura e que eu poderia ficar tranquila porque não fazia parte de nenhum grupo de risco. Em 2007, depois de ver o resultado do ultrassom, meu médico disse que eu já não tinha mais SOP, mas que deveria continuar o AC como método contraceptivo.

Em meados de 2013 comecei a sentir muitas dores nas pernas e comecei a me questionar se aquilo não tinha alguma relação com o uso do AC. Parei de tomar. Aproximadamente dois anos depois, comecei a ter uma série de sintomas característicos do diagnóstico da SOP: engordei, alguns pelos solitários começaram a surgir em lugares que não existiam antes, diversas espinhas apareceram nas partes inferiores das minhas bochechas, minha menstruação começou a ficar desregulada e as cólicas terríveis retornaram. Enfim, eu já tinha certeza de que meu diagnóstico seria de SOP, mas nesse período já estava em contato com uma série de relatos de mulheres que haviam tido complicações com o AC e estava bastante resistente a ideia de retomar seu uso. Comecei a pesquisar métodos alternativos de tratamento e me deparei com uma série de informações com as quais nunca tive contato. TODAS as vezes em que fui ao ginecologista o roteiro era o mesmo: pede ultrassom, olha o resultado, vê os cistos, diagnostica SOP, receita AC, tchauqueridabjstenhaumbomdia.

Mesmo sabendo o que me esperava no consultório, desesperada por fazer aqueles sintomas sumirem e com alguma pontinha de esperança de conseguir desenvolver algum tipo mínimo de diálogo com o médico sobre diferentes métodos de tratar SOP, fui a uma ginecologista. Antes mesmo de eu relatar os sintomas, entre as perguntas feitas para preencher minha ficha, ela diz “Toma Anticoncepcional?” “Faz três anos que não.” – uma expressão de indignação imediatamente aparece no rosto da médica – “Você tá querendo engravidar?” respiro fundo e respondo calmamente “Não. Parei de tomar por conta das reações. Não consegui me adaptar bem e...” – sou cortada – “Se não se adaptou bem tem que trocar até encontrar o adequado.” Naquele exato momento eu joguei a toalha e desisti daquela conversa.  Depois de ter trocado de anticoncepcional diversas vezes, o que essa profissional tem a me dizer é que “Tem que trocar até encontrar o adequado”? Apesar das centenas de registros de mulheres que tiveram problemas seríssimos de circulação (AVC e trombose cerebral dentre eles), o único motivo a ser cogitado pela médica para eu parar de tomar esse troço é que eu queira engravidar! (sabe daquele papo dos pesquisadores se importarem muito mais com a mulher enquanto pessoa que dá a luz do que com a saúde dela de modo geral? Pois é, vejam que bom exemplo de como isso funciona na clínica).

Resolvi tentar mais uma vez e marquei outro ginecologista. Explico os sintomas, ele olha o ultrassom e diz “É Síndrome do Ovário Policístico! O tratamento é anticoncepcional.” Nesse ponto eu já estava quase derretendo na cadeira, acometida por uma mistura de tédio e desespero, “Mas será possível que eles realmente só sabem fazer isso? Repetir o mesmo roteiro toda vez?”, pensava. Meu companheiro, que já havia lido comigo alguns materiais sobre SOP e os testes que DEVERIAM ser feitos antes que se receite qualquer remédio e que se defina o diagnóstico, pergunta “Mas não é preciso pedir alguns outros exames antes? Conferir as taxas hormonais e coisa do tipo?” e o médico responde imperativo “Não precisa. Só de olhar assim a gente já sabe. São sempre os mesmos sintomas. Não tem erro.” Prontamente me receitou um AC, já tirou duas amostras da gavetinha e disse que “as pacientes costumam se dar muito bem com ele, pode ficar tranquila”. 

Acontece, dotô, que TEM ERRO SIM! Não posso ficar tranquila não senhor! Meninas, SOP é um diagnóstico distribuído à população feminina de maneira completamente irresponsável. Sem que se tenha feito uma série de exames (que passam longe de ser apenas um ultrassom) não é possível diagnosticar a causa do aparecimento de cistos no ovário, e o tratamento, na grande maioria dos casos, tem muito mais a ver com alimentação e exercícios físicos acima de qualquer coisa, possivelmente atrelados ao uso de algum remédio que controle as taxas hormonais (que devem ser verificadas antes de tudo). Mesmo as mulheres que não tem diagnóstico de SOP devem ter muito cuidado com o uso do AC. Sabem aquela parte das “reações adversas” que consta na bula? Pois bem, elas são muito mais comuns do que imaginamos! De acordo a coordenadora do Departamento de Doenças Cerebrovasculares, Neurologia Intervencionista e Terapia Intensiva em Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia, 90% das mulheres não sabem que têm predisposição à trombose. Isso pode ocasionar em quadros seríssimos que podem levar à paralisia, perda de membros ou até à morte. 

As pílulas anticoncepcionais podem ser um bom método contraceptivo, mas não são os únicos. Mesmo que essa seja sempre a primeira opção oferecida pela maioria dos médicos, pesquise os riscos, procure por outros métodos disponíveis e escolha conscientemente a opção mais adequada para o seu estilo de vida. E acima de tudo, sempre faça acompanhamento médico com um bom profissional, exija os exames necessários e não aceite em hipótese alguma tomar qualquer medicação sem que se investigue a fundo sua condição.

“O resultado da preferência de gênero na pesquisa e educação médicas é que as mulheres sofrem desnecessariamente e morrem. Reações adversas a drogas ocorrem duas vezes mais em mulheres do que em homens” (p. 219-20).

Não aceitem diagnóstico preguiçoso! Procurem médicos realmente comprometidos com pesquisas preocupadas com a saúde das mulheres!

Recomendo a leitura dos seguintes materiais:

Blog sobre a Síndrome dos Ovários Policísticos. Indico particularmente a leitura do texto linkado a seguir, que explica de maneira simplificada alguns mitos sobre a síndrome: https://convivendocomsop.wordpress.com/2016/04/05/a-surpreendente-verdade-sobre-sindrome-dos-ovarios-policisticos/
Página com relatos de mulheres vítimas de complicações consequentes do uso de Pílulas anticoncepcionais: https://www.facebook.com/vitimasdeanticoncepcionais/?fref=ts
“Pílula anticoncepcional: os grandes perigos escondidos nesses pequenos comprimidos”: http://www.hypeness.com.br/2015/04/pilula-anticoncepcional-os-grandes-perigos-escondidos/
“Quando a pílula anticoncepcional é a pior escolha”: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/quando-pilula-anticoncepcional-e-pior-escolha.html
Ginecologista sincera. Página administrada por uma ginecologista feminista que vai na contramão do senso comum médico nessa temática: https://www.facebook.com/ginecosincera/?fref=ts
E claro, para um debate mais amplo a respeito do negligenciamento e apagamento das mulheres nas ciências, o livro O feminismo mudou a ciência? da Londa Schiebinger: http://brasil.indymedia.org/media/2007/06/386937.pdf



[1] “Na década de 1790, os anatomistas europeus apresentaram o corpo masculino e o corpo feminino como tendo cada qual um telos distinto - a força física e intelectual para o homem, a maternidade para a mulher.”