terça-feira, 25 de agosto de 2015

Mulheres, vamos cuidar umas das outras


             Há tempos tenho visto mulheres ao meu redor adoecendo, e percebo que aos poucos nossa saúde tem se tornado tema de debate. Considero essa uma conversa urgente, e enquanto mulher que sabe que já se auto negligenciou e negligenciou outras mulheres, senti a necessidade de colocar em palavras coisas que venho sentindo.
Esse tema certamente envolve diversos aspectos e carrega diversas nuances, mas gostaria de falar especificamente sobre como temos tratado umas as outras e a nós mesmas de forma agressiva. Qualquer posicionamento que entendemos como destoante do nosso ideal impecável de feminismo passa a ser não apenas motivo para divergência, mas para total desqualificação de companheiras. Por que nos tratamos de forma tão dura diante de qualquer debate? Posso estar errada, mas acredito que talvez isso diga algo a respeito de como ainda enxergamos as outras mulheres e a nós mesmas. Infelizmente nós continuamos achando que não somos merecedoras de perdão, respeito e afeto.
Nossas mães e avós provavelmente precisavam mais do que nós mesmas encontrar uma rede de apoio e organização das lutas das mulheres (e algumas encontram mesmo sem nunca ter ouvido falar de feminismo), mas tirando pelas conversas que já tive com algumas mulheres não declaradamente feministas, elas jamais dedicariam tempo, suor e fé na construção de ambientes que supostamente deveriam fortalecê-las, mas que são tão hostis e inquisidores. Isso a vida já faz com elas desde sempre, mas elas resistiram.
Não estou aqui querendo fazer uma apologia ao feminismo-ursinhos-carinhosos. Entendo que existem diversas formas de ser mulher e a forma como o patriarcado nos afeta não é igual. A vida me fez ver que mulheres podem sim oprimir e explorar outras mulheres e jamais ousaria dizer que esse debate não precisa ser feito. Precisa e é urgente. É importante que a gente saiba diferenciar o grito sufocado de mulheres negligenciadas pelos modos hegemônicos de fazer feminismo (acadêmico, classe média, branco e heterossexual) e hostilidade gratuita. Reagir a uma situação de opressão ou exploração não é a mesma coisa que ser completamente arrogante, hostil e traiçoeira com outras mulheres gratuitamente. É sobre a segunda prática da qual estou tentando falar. Eu realmente acredito que o feminismo deve ser combativo, mas será que o que deveríamos combater são a autoestima e saúde das mulheres?
Tenho entendido que quando a situação aperta, companheira de luta não é necessariamente aquela que coloca o mesmo sobrenome no feminismo que a gente, mas muitas vezes é alguém que sequer se entende feminista.  Companheira é aquela mulher que a gente sabe que pode confiar, que apesar de possíveis divergências vai arregaçar as mangas e fazer tudo o que for possível dentro de suas condições para priorizar a vida e a saúde de outra mulher. Entretanto, quando a situação não aperta muitas vezes nos demonstramos muito mais preocupadas em agir meramente em busca de aprovação de quem supostamente pensa como nós, mesmo que isso custe ser agressiva e ofensiva com outras mulheres pura e simplesmente porque pensamos/vivemos diferente dela.
Fico me perguntando o que aconteceria se nós passássemos a nos preocupar com essas mulheres e tentássemos olhar para elas com menos dureza. Se pudéssemos tentar aceitar a nós mesmas com menos rigidez. E SE contrariássemos toda a lógica que nos é ensinada desde a infância, e passássemos a enxergar que por trás do espantalho desumanizador que criamos a respeito das nossas companheiras existe uma mulher de carne e osso, com suas virtudes e limitações. Talvez a gente (importante destacar que me incluo aqui) entendesse que nem tudo precisa se resolver com tiro porrada e bomba, e que às vezes “lacrar” e “sambar na cara da sociedade” é saber escutar.

        Agradeço aqui de coração a todas as mulheres que me ajudaram a perceber isso, que feministas ou não, próximas ou distantes me ajudaram a aprender a amar e perdoar mulheres (assim como a mim mesma).

Sigamos.

PS: Homens, façam o favor de não serem toscos e pretensiosos o bastante para utilizar esse texto para esvaziar a discussão e dizer que “mulher é tudo competitiva mesmo”. Vocês também são – mas esse texto não é sobre vocês.