quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O “x” da questão: gênero neutro e meia dúzia de pitacos sobre língua e sexismo

[Essa é uma adaptação de um texto meu originalmente intitulado O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético?, publicado no livro Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano, pela Pedro & João Editores]

           Não foi possível precisar, para esse texto, o momento em que os questionamentos acerca da relação entre marcação de gênero nominal e sexismo na língua/linguagem começaram a se articular. Podemos, entretanto, afirmar que essa discussão tem aparecido cada vez de forma mais expressiva por parte dos movimentos sociais. Desde as cartas endereçadas a Paulo Freire criticando o aspecto sexista de sua linguagem, ao generalizar sua escrita no gênero masculino nos anos 70 (e a posterior alteração de sua escrita, passando a se preocupar em sempre denotar os gêneros feminino e masculino em todos os momentos em que se referia a coletividades heterogêneas), dos registros em textos de movimentos sociais, dos manuais para o uso não sexista da linguagem, e até mesmo da inserção oficializada do gênero neutro em algumas línguas como o sueco e o inglês, temos diversas materializações linguísticas desse embate.
           Antes de tentar entender esses fenômenos, parece interessante explorarmos um pouco nossas concepções sobre língua e linguagem, para que então possamos partir para as discussões a respeito das relações entre língua/linguagem e sexismo ou discriminação de gênero [1].
           Comumente nos referimos a linguagem como algo relacionado à habilidade do ser humano de se expressar por meio de um conjunto de signos, sejam eles sistematizados a partir da unidade abstrata a qual denominamos língua ou não. De todo modo, segundo Bakhtin/Volochínov (2009), os signos não se constituem fora de uma realidade material, e sua existência só é possível dentro da interação social, adquirindo significação no contexto de uma realidade material e concreta, situada em um momento histórico e coberta por valores provenientes de cada situação específica.
           Dessa forma, definir o que é língua pode ser uma tarefa um pouco mais complexa se não nos restringirmos aos aspectos estritamente estruturais dos sistemas linguísticos. Isso não significa de modo algum negar a existência da língua também como sistema, que é um conjunto de elementos inter-relacionados em vários níveis (morfológico, sintático, semântico) (KOCH, 2003), ou uma complexa realidade semiótica estruturada (FARACO, 2003). Entretanto, é necessária a compreensão de que, para além das abstrações, a língua “(...) só se realiza enquanto prática social, quer dizer, os seres humanos nas suas práticas sociais usam a língua”, que só se configura nessas práticas e é constituída por elas (KOCH, 2003, p. 124), sendo essa complexa realidade semiótica “(...) necessariamente aberta, fluída, cheia de indeterminações e polissemias, porque é atravessada justamente por nossa condição de seres humanos” (FARACO, 2003, p. 64). Nesse sentido, ao falar de língua não nos referimos a uma unidade estética acabada e autônoma com relação aos aspectos éticos e extralinguísticos, mas a um processo em curso e constante constituição na vida.
           Isso posto, podemos discutir agora a respeito da criação de gêneros neutros em algumas línguas as quais carecem dessa categoria. Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca [2]. Tal pronome trata-se de uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca, e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 60 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.
           O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”:, “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).
           A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva [3].



Fonte: Portal ABC News
           Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” [4] conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes tem completo domínio de seu uso sem necessariamente pensar a respeito dele, pois é um pronome de uso comum.
           Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do caso das línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim) [4].
           No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).
          Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se /dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino. Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (...)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB

(2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
- trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente

(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
- trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

           As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgirem e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Justamente por essa razão parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.
           Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.
           A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.
           Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida, e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva.
           Entender como se dão os processos de mudança e variação linguística não coincide de forma alguma com adotar uma postura conformista e negligenciadora das demandas de minorias sociais. Na contra mão dessa percepção purista de língua, compreender esses processos implica em pensar em alternativas de inclusão mais efetivas a curto, médio e longo prazo, tendo em vista como nosso projeto ético de mudança de valores sociais machistas e transfóbicos pode se constituir sem que se limite a construções estéticas limitantes do ponto de vista da efetiva inclusão de todas as existências dissonantes da masculinidade hegemônica.
           É fervente a urgência de contrapalavras aos projetos conservadores e misóginos, mas parece pouco efetivo nos apegarmos a ferramentas que excluem do processo de transformação outras pessoas também negligenciadas pelos processos de exclusão. O trabalho com a linguagem, no entanto, é de fato parte fundamental desse processo, desde que encontremos formas de relacionar os usos da linguagem e os problemas da vida cotidiana que se constituem por meio dela.
           Uma possibilidade que pode auxiliar nas tentativas de inclusão nas construções linguísticas é o trabalho com a construção de frases não generalizadas no gênero masculino. Embora tenha suas limitações e alguns problemas, algumas das construções propostas no Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem [5], publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online, podem auxiliar na exemplificação de como tentar construir alternativas mais inclusivas e acessíveis.


Referências Bibliográficas

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
_________. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010.
_________. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Editora da Unesp, 1998.
MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.
PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.
VOLOCHÍNOV/BAKHTIN. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora Hucitec, 2009.

Referências Eletrônicas


Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/>. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/>. Acesso em 03 out 2015.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra>. Acesso em 03 out 2015.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf>. Acesso em 03 out 2015.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary>. Acesso em 03 out 2015.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/>. Acesso em 03 out 2015.

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[1] Me refiro aqui a sexismo como a discriminação baseada no sexo biológico, e discriminação de gênero a discriminação cometida mediante o reconhecimento do gênero social (mulher, homem ou travesti), admitindo uma relação entre ambos que optarei por não explorar nesse texto a fim de manter a proposta da temática central de discussão.

[2] UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns> . Acesso em 03 de out 2015.

[3] Tradicionalmente utilizado para se referir a terceira pessoa do plural.

[4] Para maiores informações, recomendo esse apanhado a respeito da influência do latim nas línguas anglo-saxônicas: http://lecschool.com.br/v1/biblioteca/EDUHistory_%20English_language.pdf 

[5] Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf>. Acesso em 03 out 2015.




terça-feira, 25 de agosto de 2015

Mulheres, vamos cuidar umas das outras


             Há tempos tenho visto mulheres ao meu redor adoecendo, e percebo que aos poucos nossa saúde tem se tornado tema de debate. Considero essa uma conversa urgente, e enquanto mulher que sabe que já se auto negligenciou e negligenciou outras mulheres, senti a necessidade de colocar em palavras coisas que venho sentindo.
Esse tema certamente envolve diversos aspectos e carrega diversas nuances, mas gostaria de falar especificamente sobre como temos tratado umas as outras e a nós mesmas de forma agressiva. Qualquer posicionamento que entendemos como destoante do nosso ideal impecável de feminismo passa a ser não apenas motivo para divergência, mas para total desqualificação de companheiras. Por que nos tratamos de forma tão dura diante de qualquer debate? Posso estar errada, mas acredito que talvez isso diga algo a respeito de como ainda enxergamos as outras mulheres e a nós mesmas. Infelizmente nós continuamos achando que não somos merecedoras de perdão, respeito e afeto.
Nossas mães e avós provavelmente precisavam mais do que nós mesmas encontrar uma rede de apoio e organização das lutas das mulheres (e algumas encontram mesmo sem nunca ter ouvido falar de feminismo), mas tirando pelas conversas que já tive com algumas mulheres não declaradamente feministas, elas jamais dedicariam tempo, suor e fé na construção de ambientes que supostamente deveriam fortalecê-las, mas que são tão hostis e inquisidores. Isso a vida já faz com elas desde sempre, mas elas resistiram.
Não estou aqui querendo fazer uma apologia ao feminismo-ursinhos-carinhosos. Entendo que existem diversas formas de ser mulher e a forma como o patriarcado nos afeta não é igual. A vida me fez ver que mulheres podem sim oprimir e explorar outras mulheres e jamais ousaria dizer que esse debate não precisa ser feito. Precisa e é urgente. É importante que a gente saiba diferenciar o grito sufocado de mulheres negligenciadas pelos modos hegemônicos de fazer feminismo (acadêmico, classe média, branco e heterossexual) e hostilidade gratuita. Reagir a uma situação de opressão ou exploração não é a mesma coisa que ser completamente arrogante, hostil e traiçoeira com outras mulheres gratuitamente. É sobre a segunda prática da qual estou tentando falar. Eu realmente acredito que o feminismo deve ser combativo, mas será que o que deveríamos combater são a autoestima e saúde das mulheres?
Tenho entendido que quando a situação aperta, companheira de luta não é necessariamente aquela que coloca o mesmo sobrenome no feminismo que a gente, mas muitas vezes é alguém que sequer se entende feminista.  Companheira é aquela mulher que a gente sabe que pode confiar, que apesar de possíveis divergências vai arregaçar as mangas e fazer tudo o que for possível dentro de suas condições para priorizar a vida e a saúde de outra mulher. Entretanto, quando a situação não aperta muitas vezes nos demonstramos muito mais preocupadas em agir meramente em busca de aprovação de quem supostamente pensa como nós, mesmo que isso custe ser agressiva e ofensiva com outras mulheres pura e simplesmente porque pensamos/vivemos diferente dela.
Fico me perguntando o que aconteceria se nós passássemos a nos preocupar com essas mulheres e tentássemos olhar para elas com menos dureza. Se pudéssemos tentar aceitar a nós mesmas com menos rigidez. E SE contrariássemos toda a lógica que nos é ensinada desde a infância, e passássemos a enxergar que por trás do espantalho desumanizador que criamos a respeito das nossas companheiras existe uma mulher de carne e osso, com suas virtudes e limitações. Talvez a gente (importante destacar que me incluo aqui) entendesse que nem tudo precisa se resolver com tiro porrada e bomba, e que às vezes “lacrar” e “sambar na cara da sociedade” é saber escutar.

        Agradeço aqui de coração a todas as mulheres que me ajudaram a perceber isso, que feministas ou não, próximas ou distantes me ajudaram a aprender a amar e perdoar mulheres (assim como a mim mesma).

Sigamos.

PS: Homens, façam o favor de não serem toscos e pretensiosos o bastante para utilizar esse texto para esvaziar a discussão e dizer que “mulher é tudo competitiva mesmo”. Vocês também são – mas esse texto não é sobre vocês.