segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Resenha de Na Natureza Selvagem, Jon Krakauer



“Há muito tempo que o Alasca atrai sonhadores e desajustados, gente que acha que a vastidão imaculada da Última Fronteira irá preencher todos os vazios de sua vida. Porém, o mato é um lugar que não perdoa, que não dá a mínima para a esperança ou desejo” (p.10).



Na Natureza Selvagem (Into The Wild) é um livro-reportagem escrito pelo jornalista Jon Krakauer que conta a história de Cristopher MacCandless, um jovem que ficou conhecido nacionalmente em 1992 por ter largado tudo para trás e morrido no ônibus abandonado 142 de Fairbanks, em meio a sua aventura pela trilha Stampede no Alasca, onde pretendia viver por algum tempo de caça e colheita.

Christopher era um jovem de classe média alta, criado no subúrbio de Washington que abominava o estilo de vida de seus pais e o american way of life como um todo. Depois de sua formatura na Universidade de Atlanta, doou todos os 24 mil dólares de sua poupança para uma instituição filantrópica e partiu para concretizar seu plano de realizar a trilha de Stampede com o menor número de recursos materiais possíveis, vivendo essencialmente daquilo que fosse fruto de seu esforço pessoal.

Ok. Eu sei que nesse ponto do texto você deve tá já meio puto com esse que agora considera um moleque mimado que não sabe nada da vida e que poderia tranquilamente estar numa daquelas reportagens bunda de gente com cara de modelo que “largou tudo para viajar”. Eu também tive essa resistência e até o final do livro tive sentimentos dúbios com relação ao Cristopher, mas acho que a história é mais interessante do que isso. Cristopher ficou famoso diante de seu fracasso e não pela plasticidade inalcançável da beleza e sucesso de toda uma legião de blogueiros “mochileiros”.

É relevante dizer que a viagem de Cristopher não foi um ato de impulso. Tudo indica que mesmo durante seu período de faculdade, enquanto morava sozinho, já vivia de maneira bastante minimalista. Seu quarto era hermeticamente limpo, mas não tinha muito mais do que um colchão, uma mesa e livros. Ele planejou sua ida durante um bom tempo e realizou um nível razoável de pesquisa antes de partir.

Uma vez tendo entregado o diploma aos pais, Cristopher escreveu uma carta a sua irmã Carine e caiu na estrada sem dizer a ninguém para onde ia ou quando voltava. Quando seu carro, um antigo Datson comprado alguns anos antes com o dinheiro guardado que havia recebido por alguns trabalhos, ficou preso em uma enchente a caminho de seu destino, Cris resolveu não só deixar o carro e quase todos seus pertences para trás como também todo o dinheiro que tinha em sua carteira, 123 dólares, os quais ateou fogo e tirou uma foto. Seguiu para a estrada com uma mochila contendo alguns poucos quilos de arroz, alguns livros, sua câmera e outros poucos itens.

Cris era um rapaz com o caráter formado por leituras de autores como Tolstoi, Jack London e Thoreau. Ao longo de todo o livro, Jon Krakauer apresenta trechos sublinhados por Cris nos livros que haviam sido encontrados com ele dois anos e alguns meses após sua partida. Dentre eles, está um trecho de Felicidade Familiar de Tolstoi que não carece de maiores explicações:

“Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor. Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro em nossa vida tranquila.”

Daquele momento em diante, Cristopher passou a se identificar como Alexander Supertramp. Viveu os próximos dois anos na estrada se preparando para sua aventura na trilha Stampede, percorrendo o território estadunidense, pedindo carona nas estradas e caminhando grandes distâncias. Durante esse período, Alex trabalhou em diversos lugares, dentre eles, em uma franquia do McDonalds como chapeiro e como faz tudo consertando escavadeiras na pequena cidade de Cartago, na Califórnia.  

Todos os relatos ao longo do livro indicam que Cris era um rapaz tremendamente inteligente e agradável, mas que tinha certo apreço pela solidão e alguma dificuldade com a ideia de criar raízes. Cris parecia ter horror à trivialidade da rotina e desejava buscar por aquilo que fosse de mais essencial, dessa forma, tentava o tempo todo se desprender de tudo que aparentasse ser uma maneira de se manter em uma existência mediana naquele momento de sua vida.

Ao longo de seus dois anos de estrada, Cristopher viveu uma vida intensa e povoada ao mesmo tempo por muitas pessoas e muita solidão. Embora o rapaz tenha conhecido diversas pessoas com as quais desenvolveu afinidade, passou muito tempo completamente sozinho. Depois desses dois anos, Cris conseguiu finalmente chegar a seu destino original, a trilha Stampede. Lá viveu por 2 meses de caça e plantas e foi encontrado morto, 121 dias depois de sua chegada. Ao longo de seu diário, encontram-se relatos de absoluto êxtase e contemplação, introspecção e solidão. Em um de seus últimos escritos, “(...) em letras de forma meticulosas numa página arrancada de Taras Bulha, de Gogol, ele diz:

S O S. PRECISO DE SUA AJUDA. ESTOU FERIDO, QUASE MORTO E FRACO DEMAIS PARA SAIR DAQUI. ESTOU SOZINHO, ISTO NÃO É PIADA. EM NOME DE DEUS, POR FAVOR FIQUE PARA ME SALVAR. ESTOU CATANDO FRUTAS POR PERTO E DEVO VOLTAR ESTA TARDE. OBRIGADO.

Ele assinou o bilhete ‘CHRIS MCCANDLESS, AGOSTO?’. Reconhecendo a gravidade de sua situação, abandonou o apelido pretensioso que vinha usando havia anos, Alexander Supertramp, em favor do nome que recebeu de seus pais ao nascer” (p.128).

Apesar do desespero expresso nesse bilhete, além do simples contar dos dias registrados no papel, Cris fez duas anotações. Uma delas sobre seu maravilhamento diante de frutas que havia encontrado e outra dizendo que teve uma vida feliz e agradecia à deus. As últimas fotos encontradas no filme de sua máquina registram seu corpo tremendamente magro e já desnutrido, mas sempre um sorriso no rosto e um olhar quase sempre tranquilo. Quem lê seu diário e vê suas fotos acredita que Cris morreu não com pena de si mesmo, mas em paz.



Este livro inspirou um filme de mesmo nome e, embora eu goste muito do filme, devo dizer que o livro trás consigo um diferencial importante, Jon Krakauer. A sensibilidade do autor ao construir a narrativa do livro composto por trechos do Diário de Cris, feito no livro de botânica levado pelo rapaz como guia para sua alimentação durante a viagem, as cartas trocadas entre Alex e os amigos que fez ao longo de sua jornada e os relatos desses amigos e da família MacCandless entrevistados por Krakauer são de uma sensibilidade imensa. Além disso, o autor traz também algumas outras histórias de jovens em diferentes épocas que sumiram em busca de uma aventura que os levasse ao limite, inclusive dele próprio. É bastante óbvia a identificação do jornalista com Cris e se você é alguém que algum dia já desejou seriamente se jogar no mundo, provavelmente vai se identificar de alguma maneira também. 

 Cartão postal enviado por McCandless ao seu amigo Burres


Desde quando saiu como reportagem na revista Outside, a história de Cris evocou diversas cartas de pessoas do país todo com os ânimos à flor da pele. Eu particularmente me solidarizei com o desespero dos pais dele em certo ponto do livro (acho que estou ficando velha), mas a maioria das cartas parecia estar obstinada a condenar o rapaz como o maior e mais estúpido pecador de todos os tempos, embora tenha conseguido sobreviver 2 anos na estrada, 2 meses na trilha Stampede e tenha morrido por conta de um descuido pouco óbvio. A irritação de alguns leitores direcionada a Cristopher faz parecer que era pessoal. Talvez, afinal de contas, como diz Krakauer, essa irritação seja fruto de algum nível de identificação com o rapaz, em quem os leitores conseguem ver algo de suas juventudes, uma vez que ‘(...) o comportamento de risco é um rito de passagem em nossa cultura, não menos do que na maioria das outras” e vários de nós temos histórias provavelmente menos ousadas do que a de McCandless para contar, mas igualmente perigosas.




Àqueles que acreditam que estraguei o livro porque contei spoiler demais, digo que definitivamente o que há de mais interessante na obra são o processo de travessia e todas as pequenas histórias que compõem o seu todo. 


Deixo aqui por fim uma das músicas preferidas de Cristopher McCandless,  King of the Road de Roger Miller:




quarta-feira, 8 de junho de 2016

Como o machismo na medicina tem matado as mulheres pouco a pouco



Em seu livro intitulado “O feminismo mudou a Ciência?”, Londa Schiebinger se propõe a discutir por meio de dados fornecidos por áreas como a biologia, a primatologia e a medicina a seguinte questão: “A exclusão de mulheres, das ciências, teve consequências para o conteúdo da ciência?”

Àqueles que se apressam em nesse ponto do texto rebater que a ciência “não tem sexo”, pois “é neutra”, me adianto trazendo as seguintes palavras de Londa:
“Desde o Iluminismo, a ciência agitou corações e mentes com sua promessa de uma perspectiva ‘neutra’ e privilegiada, acima das brigas violentas da vida política. Homens e mulheres, igualmente, responderam ao fascínio da ciência: ‘a promessa de tocar o mundo em seu ser mais íntimo, um toque tornado possível pelo poder do puro pensamento’. O poder da ciência ocidental - sua metodologia e epistemologia - é celebrado por produzir um conhecimento objetivo e universal que transcende as restrições culturais. Com respeito a gênero, raça, e muito mais, entretanto, a ciência não é neutra. Desigualdades de gênero, incorporadas nas instituições da ciência, influenciaram o conhecimento saído destas instituições” (p.205).
Para levar adiante essa discussão, é importante compreender que pesquisadores podem ser tendenciosos de maneira inconsciente ou não intencional, mas são influenciados por questões políticas e sociais ao criar suas categorias de análise. Para ilustrar um pouco disso, vou tentar expor resumidamente alguns aspectos da história da medicina explorados pela historiadora da ciência.

Até meados do século XVIII, pesquisadores acreditavam que o corpo feminino era uma versão inferior do corpo masculino, sendo as únicas diferenças entre os corpos femininos e masculinos os aparelhos reprodutivos e a qualidade inferior do feminino (que era entendido como uma espécie de cópia inferior do corpo masculino).

Após esse período, passou-se a considerar a “diferença sexual” não mais como uma questão resumida às genitálias, mas “que envolvia cada fibra do corpo”. Muitas e muitas décadas de pesquisa se seguiram norteadas pela ideia de papéis sexuais. As pesquisas como um todo buscavam encontrar evidências “biológicas” para justificar os papéis de homens e mulheres na sociedade[1].

Como aponta Londa, “(...) poucos médicos interessavam-se pelas implicações da diferença na assistência à saúde. Na maioria das vezes, o estudo acadêmico de diferenças sexuais era projetado para manter as mulheres em seu lugar”.

No século XIX, em um momento de grandes reinvindicações das mulheres estadunidenses para serem admitidas nas universidades, argumentava-se que a ânsia de mulheres em produzir ciência era a forma mais alta de egoísmo, e essa atitude poderia prejudicar a saúde delas de tal forma que seus ovários poderiam atrofiar (!).
“Embora grande número de estudos tenha sido feito para mostrar que as mulheres não estão à altura dos homens, é surpreendente o quão pouco sabemos acerca dos corpos femininos, quando se trata de manter as mulheres saudáveis” (p. 215).
A autora nos conta que a história da medicina oscilou nesse sentido entre dois paradigmas. O paradigma da igualdade, que considerava os organismos feminino e masculino iguais, teve como consequência o fato de que certos aspectos da saúde das mulheres fossem pouquíssimo estudados, como por exemplo, a relação entre tratamento com estrógenos e problemas cardiovasculares (vejam vocês, isso tem muitíssimo a ver com o que me motivou a escrever esse texto, como vou explicar mais adiante). Já o paradigma da diferença radical resultou em considerar sintomas relatados por mulheres como efeitos “psicossomáticos” com muito maior recorrência do que se registram os sintomas relatados por homens (dito em bom português, “mulher é tudo meio doida e paranoica mesmo... homem não, quando relata algo deve ser coisa séria”).

Na década de 80, diversas feministas se dedicaram a estudar e criticar pesquisas médicas que negligenciavam totalmente os corpos femininos, se baseando em grupos controle compostos unicamente por homens (em um deles, por exemplo, foram estudados 22.071 homens e ZERO mulheres). Os resultados dos testes realizados apenas com indivíduos do sexo masculino eram generalizados para toda a população, e, mesmo sem que se soubesse, por exemplo, o efeito de aspirinas em casos de doenças cardíacas no organismo feminino, mulheres passaram a ser orientadas a tomar uma aspirina por dia (tá dando pra sacar o absurdo?). Esse tipo de negligência com o estudo do organismo feminino, tomando o corpo masculino como referência universal, foi e ainda é responsável por danos seríssimos na saúde das mulheres. 

Uma pesquisa de 1981 sobre estudos a respeito da saúde das mulheres descobriu que havia duas vezes mais pesquisas sobre mulheres relacionadas ao parto e à criação dos filhos do que outros problemas de saúde. Além disso, apesar do foco na saúde reprodutiva, dos mais de 15 institutos do NIH ([Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos) nenhum deles era dedicado à ginecologia e obstetrícia. Dito de outra maneira, temos profissionais dedicados a cuidar da saúde dos bebês, mas não temos profissionais dedicados a cuidar da saúde das mulheres que deram a luz a esses bebês. E mais, a grande maioria dos estudos a respeito da saúde das mulheres naquele momento estava diretamente relacionado a mulher apenas enquanto sujeito que dá a luz, não enquanto um organismo que necessita de cuidados independente de ter (ou querer) ter filhos ou não.

Pois bem, nesse ponto do texto gostaria de registrar um palpite meu: o tratamento médico oferecido às mulheres não mudou tanto assim de lá pra cá. Esse palpite se baseia em diversas experiências que vivenciei pessoalmente, em relatos de diversas outras mulheres que vivenciaram situações semelhantes ou muito piores, e em uma pesquisa constante que tenho me proposto a fazer na literatura médica (de acordo com meu limite de compreensão da linguagem da área). Diversas questões poderiam ser abordadas a partir dessa problemática, mas o que me motivou a fazer essa pesquisa envolve algo mais rotineiro do que se possa imaginar: as pílulas anticoncepcionais. Já adianto que meu objetivo aqui não é dizer que nenhuma mulher, sob hipótese alguma, deva tomar a pílula. Meu objetivo é unicamente explicitar como é perigosa a maneira como a pílula é prescrita indiscriminadamente para as mulheres, expondo-as a uma série de prováveis problemas de saúde.

Aos 13 anos de idade recebi o diagnóstico de Síndrome do Ovário Policístico (SOP) e, como tratamento, recebi a prescrição do uso de pílulas anticoncepcionais. De lá para cá (ou seja, em um período de quase 13 anos) já tomei praticamente todos anticoncepcionais disponíveis na praça (desde o mais fraquinho até o polêmico Diane 35). Já passei em mais de uma dezena de profissionais e nunca durante todos esses anos me pediram qualquer exame que não fosse apenas um ultrassom antes de me prescreverem qualquer um desses remédios. Eventualmente surgia na grande mídia alguma notícia em destaque sobre casos de mulheres que tiveram tromboses ou algum outro tipo de complicação consequente do uso de AC, e quando eu questionava meus médicos a respeito disso, diziam que era uma porcentagem muito baixa de mulheres que passavam por essas tais “reações adversas”, que a pílula era segura e que eu poderia ficar tranquila porque não fazia parte de nenhum grupo de risco. Em 2007, depois de ver o resultado do ultrassom, meu médico disse que eu já não tinha mais SOP, mas que deveria continuar o AC como método contraceptivo.

Em meados de 2013 comecei a sentir muitas dores nas pernas e comecei a me questionar se aquilo não tinha alguma relação com o uso do AC. Parei de tomar. Aproximadamente dois anos depois, comecei a ter uma série de sintomas característicos do diagnóstico da SOP: engordei, alguns pelos solitários começaram a surgir em lugares que não existiam antes, diversas espinhas apareceram nas partes inferiores das minhas bochechas, minha menstruação começou a ficar desregulada e as cólicas terríveis retornaram. Enfim, eu já tinha certeza de que meu diagnóstico seria de SOP, mas nesse período já estava em contato com uma série de relatos de mulheres que haviam tido complicações com o AC e estava bastante resistente a ideia de retomar seu uso. Comecei a pesquisar métodos alternativos de tratamento e me deparei com uma série de informações com as quais nunca tive contato. TODAS as vezes em que fui ao ginecologista o roteiro era o mesmo: pede ultrassom, olha o resultado, vê os cistos, diagnostica SOP, receita AC, tchauqueridabjstenhaumbomdia.

Mesmo sabendo o que me esperava no consultório, desesperada por fazer aqueles sintomas sumirem e com alguma pontinha de esperança de conseguir desenvolver algum tipo mínimo de diálogo com o médico sobre diferentes métodos de tratar SOP, fui a uma ginecologista. Antes mesmo de eu relatar os sintomas, entre as perguntas feitas para preencher minha ficha, ela diz “Toma Anticoncepcional?” “Faz três anos que não.” – uma expressão de indignação imediatamente aparece no rosto da médica – “Você tá querendo engravidar?” respiro fundo e respondo calmamente “Não. Parei de tomar por conta das reações. Não consegui me adaptar bem e...” – sou cortada – “Se não se adaptou bem tem que trocar até encontrar o adequado.” Naquele exato momento eu joguei a toalha e desisti daquela conversa.  Depois de ter trocado de anticoncepcional diversas vezes, o que essa profissional tem a me dizer é que “Tem que trocar até encontrar o adequado”? Apesar das centenas de registros de mulheres que tiveram problemas seríssimos de circulação (AVC e trombose cerebral dentre eles), o único motivo a ser cogitado pela médica para eu parar de tomar esse troço é que eu queira engravidar! (sabe daquele papo dos pesquisadores se importarem muito mais com a mulher enquanto pessoa que dá a luz do que com a saúde dela de modo geral? Pois é, vejam que bom exemplo de como isso funciona na clínica).

Resolvi tentar mais uma vez e marquei outro ginecologista. Explico os sintomas, ele olha o ultrassom e diz “É Síndrome do Ovário Policístico! O tratamento é anticoncepcional.” Nesse ponto eu já estava quase derretendo na cadeira, acometida por uma mistura de tédio e desespero, “Mas será possível que eles realmente só sabem fazer isso? Repetir o mesmo roteiro toda vez?”, pensava. Meu companheiro, que já havia lido comigo alguns materiais sobre SOP e os testes que DEVERIAM ser feitos antes que se receite qualquer remédio e que se defina o diagnóstico, pergunta “Mas não é preciso pedir alguns outros exames antes? Conferir as taxas hormonais e coisa do tipo?” e o médico responde imperativo “Não precisa. Só de olhar assim a gente já sabe. São sempre os mesmos sintomas. Não tem erro.” Prontamente me receitou um AC, já tirou duas amostras da gavetinha e disse que “as pacientes costumam se dar muito bem com ele, pode ficar tranquila”. 

Acontece, dotô, que TEM ERRO SIM! Não posso ficar tranquila não senhor! Meninas, SOP é um diagnóstico distribuído à população feminina de maneira completamente irresponsável. Sem que se tenha feito uma série de exames (que passam longe de ser apenas um ultrassom) não é possível diagnosticar a causa do aparecimento de cistos no ovário, e o tratamento, na grande maioria dos casos, tem muito mais a ver com alimentação e exercícios físicos acima de qualquer coisa, possivelmente atrelados ao uso de algum remédio que controle as taxas hormonais (que devem ser verificadas antes de tudo). Mesmo as mulheres que não tem diagnóstico de SOP devem ter muito cuidado com o uso do AC. Sabem aquela parte das “reações adversas” que consta na bula? Pois bem, elas são muito mais comuns do que imaginamos! De acordo a coordenadora do Departamento de Doenças Cerebrovasculares, Neurologia Intervencionista e Terapia Intensiva em Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia, 90% das mulheres não sabem que têm predisposição à trombose. Isso pode ocasionar em quadros seríssimos que podem levar à paralisia, perda de membros ou até à morte. 

As pílulas anticoncepcionais podem ser um bom método contraceptivo, mas não são os únicos. Mesmo que essa seja sempre a primeira opção oferecida pela maioria dos médicos, pesquise os riscos, procure por outros métodos disponíveis e escolha conscientemente a opção mais adequada para o seu estilo de vida. E acima de tudo, sempre faça acompanhamento médico com um bom profissional, exija os exames necessários e não aceite em hipótese alguma tomar qualquer medicação sem que se investigue a fundo sua condição.

“O resultado da preferência de gênero na pesquisa e educação médicas é que as mulheres sofrem desnecessariamente e morrem. Reações adversas a drogas ocorrem duas vezes mais em mulheres do que em homens” (p. 219-20).

Não aceitem diagnóstico preguiçoso! Procurem médicos realmente comprometidos com pesquisas preocupadas com a saúde das mulheres!

Recomendo a leitura dos seguintes materiais:

Blog sobre a Síndrome dos Ovários Policísticos. Indico particularmente a leitura do texto linkado a seguir, que explica de maneira simplificada alguns mitos sobre a síndrome: https://convivendocomsop.wordpress.com/2016/04/05/a-surpreendente-verdade-sobre-sindrome-dos-ovarios-policisticos/
Página com relatos de mulheres vítimas de complicações consequentes do uso de Pílulas anticoncepcionais: https://www.facebook.com/vitimasdeanticoncepcionais/?fref=ts
“Pílula anticoncepcional: os grandes perigos escondidos nesses pequenos comprimidos”: http://www.hypeness.com.br/2015/04/pilula-anticoncepcional-os-grandes-perigos-escondidos/
“Quando a pílula anticoncepcional é a pior escolha”: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/03/quando-pilula-anticoncepcional-e-pior-escolha.html
Ginecologista sincera. Página administrada por uma ginecologista feminista que vai na contramão do senso comum médico nessa temática: https://www.facebook.com/ginecosincera/?fref=ts
E claro, para um debate mais amplo a respeito do negligenciamento e apagamento das mulheres nas ciências, o livro O feminismo mudou a ciência? da Londa Schiebinger: http://brasil.indymedia.org/media/2007/06/386937.pdf



[1] “Na década de 1790, os anatomistas europeus apresentaram o corpo masculino e o corpo feminino como tendo cada qual um telos distinto - a força física e intelectual para o homem, a maternidade para a mulher.”

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O “x” da questão: gênero neutro e meia dúzia de pitacos sobre língua e sexismo

[Essa é uma adaptação de um texto meu originalmente intitulado O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético?, publicado no livro Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano, pela Pedro & João Editores]

           Não foi possível precisar, para esse texto, o momento em que os questionamentos acerca da relação entre marcação de gênero nominal e sexismo na língua/linguagem começaram a se articular. Podemos, entretanto, afirmar que essa discussão tem aparecido cada vez de forma mais expressiva por parte dos movimentos sociais. Desde as cartas endereçadas a Paulo Freire criticando o aspecto sexista de sua linguagem, ao generalizar sua escrita no gênero masculino nos anos 70 (e a posterior alteração de sua escrita, passando a se preocupar em sempre denotar os gêneros feminino e masculino em todos os momentos em que se referia a coletividades heterogêneas), dos registros em textos de movimentos sociais, dos manuais para o uso não sexista da linguagem, e até mesmo da inserção oficializada do gênero neutro em algumas línguas como o sueco e o inglês, temos diversas materializações linguísticas desse embate.
           Antes de tentar entender esses fenômenos, parece interessante explorarmos um pouco nossas concepções sobre língua e linguagem, para que então possamos partir para as discussões a respeito das relações entre língua/linguagem e sexismo ou discriminação de gênero [1].
           Comumente nos referimos a linguagem como algo relacionado à habilidade do ser humano de se expressar por meio de um conjunto de signos, sejam eles sistematizados a partir da unidade abstrata a qual denominamos língua ou não. De todo modo, segundo Bakhtin/Volochínov (2009), os signos não se constituem fora de uma realidade material, e sua existência só é possível dentro da interação social, adquirindo significação no contexto de uma realidade material e concreta, situada em um momento histórico e coberta por valores provenientes de cada situação específica.
           Dessa forma, definir o que é língua pode ser uma tarefa um pouco mais complexa se não nos restringirmos aos aspectos estritamente estruturais dos sistemas linguísticos. Isso não significa de modo algum negar a existência da língua também como sistema, que é um conjunto de elementos inter-relacionados em vários níveis (morfológico, sintático, semântico) (KOCH, 2003), ou uma complexa realidade semiótica estruturada (FARACO, 2003). Entretanto, é necessária a compreensão de que, para além das abstrações, a língua “(...) só se realiza enquanto prática social, quer dizer, os seres humanos nas suas práticas sociais usam a língua”, que só se configura nessas práticas e é constituída por elas (KOCH, 2003, p. 124), sendo essa complexa realidade semiótica “(...) necessariamente aberta, fluída, cheia de indeterminações e polissemias, porque é atravessada justamente por nossa condição de seres humanos” (FARACO, 2003, p. 64). Nesse sentido, ao falar de língua não nos referimos a uma unidade estética acabada e autônoma com relação aos aspectos éticos e extralinguísticos, mas a um processo em curso e constante constituição na vida.
           Isso posto, podemos discutir agora a respeito da criação de gêneros neutros em algumas línguas as quais carecem dessa categoria. Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca [2]. Tal pronome trata-se de uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca, e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 60 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.
           O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”:, “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).
           A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva [3].



Fonte: Portal ABC News
           Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” [4] conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes tem completo domínio de seu uso sem necessariamente pensar a respeito dele, pois é um pronome de uso comum.
           Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do caso das línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim) [4].
           No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).
          Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se /dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino. Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (...)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB

(2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
- trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente

(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
- trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

           As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgirem e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Justamente por essa razão parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.
           Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.
           A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.
           Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida, e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva.
           Entender como se dão os processos de mudança e variação linguística não coincide de forma alguma com adotar uma postura conformista e negligenciadora das demandas de minorias sociais. Na contra mão dessa percepção purista de língua, compreender esses processos implica em pensar em alternativas de inclusão mais efetivas a curto, médio e longo prazo, tendo em vista como nosso projeto ético de mudança de valores sociais machistas e transfóbicos pode se constituir sem que se limite a construções estéticas limitantes do ponto de vista da efetiva inclusão de todas as existências dissonantes da masculinidade hegemônica.
           É fervente a urgência de contrapalavras aos projetos conservadores e misóginos, mas parece pouco efetivo nos apegarmos a ferramentas que excluem do processo de transformação outras pessoas também negligenciadas pelos processos de exclusão. O trabalho com a linguagem, no entanto, é de fato parte fundamental desse processo, desde que encontremos formas de relacionar os usos da linguagem e os problemas da vida cotidiana que se constituem por meio dela.
           Uma possibilidade que pode auxiliar nas tentativas de inclusão nas construções linguísticas é o trabalho com a construção de frases não generalizadas no gênero masculino. Embora tenha suas limitações e alguns problemas, algumas das construções propostas no Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem [5], publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online, podem auxiliar na exemplificação de como tentar construir alternativas mais inclusivas e acessíveis.


Referências Bibliográficas

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
_________. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010.
_________. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Editora da Unesp, 1998.
MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.
PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.
VOLOCHÍNOV/BAKHTIN. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora Hucitec, 2009.

Referências Eletrônicas


Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/>. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/>. Acesso em 03 out 2015.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra>. Acesso em 03 out 2015.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf>. Acesso em 03 out 2015.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary>. Acesso em 03 out 2015.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/>. Acesso em 03 out 2015.

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[1] Me refiro aqui a sexismo como a discriminação baseada no sexo biológico, e discriminação de gênero a discriminação cometida mediante o reconhecimento do gênero social (mulher, homem ou travesti), admitindo uma relação entre ambos que optarei por não explorar nesse texto a fim de manter a proposta da temática central de discussão.

[2] UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns> . Acesso em 03 de out 2015.

[3] Tradicionalmente utilizado para se referir a terceira pessoa do plural.

[4] Para maiores informações, recomendo esse apanhado a respeito da influência do latim nas línguas anglo-saxônicas: http://lecschool.com.br/v1/biblioteca/EDUHistory_%20English_language.pdf 

[5] Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf>. Acesso em 03 out 2015.




terça-feira, 25 de agosto de 2015

Mulheres, vamos cuidar umas das outras


             Há tempos tenho visto mulheres ao meu redor adoecendo, e percebo que aos poucos nossa saúde tem se tornado tema de debate. Considero essa uma conversa urgente, e enquanto mulher que sabe que já se auto negligenciou e negligenciou outras mulheres, senti a necessidade de colocar em palavras coisas que venho sentindo.
Esse tema certamente envolve diversos aspectos e carrega diversas nuances, mas gostaria de falar especificamente sobre como temos tratado umas as outras e a nós mesmas de forma agressiva. Qualquer posicionamento que entendemos como destoante do nosso ideal impecável de feminismo passa a ser não apenas motivo para divergência, mas para total desqualificação de companheiras. Por que nos tratamos de forma tão dura diante de qualquer debate? Posso estar errada, mas acredito que talvez isso diga algo a respeito de como ainda enxergamos as outras mulheres e a nós mesmas. Infelizmente nós continuamos achando que não somos merecedoras de perdão, respeito e afeto.
Nossas mães e avós provavelmente precisavam mais do que nós mesmas encontrar uma rede de apoio e organização das lutas das mulheres (e algumas encontram mesmo sem nunca ter ouvido falar de feminismo), mas tirando pelas conversas que já tive com algumas mulheres não declaradamente feministas, elas jamais dedicariam tempo, suor e fé na construção de ambientes que supostamente deveriam fortalecê-las, mas que são tão hostis e inquisidores. Isso a vida já faz com elas desde sempre, mas elas resistiram.
Não estou aqui querendo fazer uma apologia ao feminismo-ursinhos-carinhosos. Entendo que existem diversas formas de ser mulher e a forma como o patriarcado nos afeta não é igual. A vida me fez ver que mulheres podem sim oprimir e explorar outras mulheres e jamais ousaria dizer que esse debate não precisa ser feito. Precisa e é urgente. É importante que a gente saiba diferenciar o grito sufocado de mulheres negligenciadas pelos modos hegemônicos de fazer feminismo (acadêmico, classe média, branco e heterossexual) e hostilidade gratuita. Reagir a uma situação de opressão ou exploração não é a mesma coisa que ser completamente arrogante, hostil e traiçoeira com outras mulheres gratuitamente. É sobre a segunda prática da qual estou tentando falar. Eu realmente acredito que o feminismo deve ser combativo, mas será que o que deveríamos combater são a autoestima e saúde das mulheres?
Tenho entendido que quando a situação aperta, companheira de luta não é necessariamente aquela que coloca o mesmo sobrenome no feminismo que a gente, mas muitas vezes é alguém que sequer se entende feminista.  Companheira é aquela mulher que a gente sabe que pode confiar, que apesar de possíveis divergências vai arregaçar as mangas e fazer tudo o que for possível dentro de suas condições para priorizar a vida e a saúde de outra mulher. Entretanto, quando a situação não aperta muitas vezes nos demonstramos muito mais preocupadas em agir meramente em busca de aprovação de quem supostamente pensa como nós, mesmo que isso custe ser agressiva e ofensiva com outras mulheres pura e simplesmente porque pensamos/vivemos diferente dela.
Fico me perguntando o que aconteceria se nós passássemos a nos preocupar com essas mulheres e tentássemos olhar para elas com menos dureza. Se pudéssemos tentar aceitar a nós mesmas com menos rigidez. E SE contrariássemos toda a lógica que nos é ensinada desde a infância, e passássemos a enxergar que por trás do espantalho desumanizador que criamos a respeito das nossas companheiras existe uma mulher de carne e osso, com suas virtudes e limitações. Talvez a gente (importante destacar que me incluo aqui) entendesse que nem tudo precisa se resolver com tiro porrada e bomba, e que às vezes “lacrar” e “sambar na cara da sociedade” é saber escutar.

        Agradeço aqui de coração a todas as mulheres que me ajudaram a perceber isso, que feministas ou não, próximas ou distantes me ajudaram a aprender a amar e perdoar mulheres (assim como a mim mesma).

Sigamos.

PS: Homens, façam o favor de não serem toscos e pretensiosos o bastante para utilizar esse texto para esvaziar a discussão e dizer que “mulher é tudo competitiva mesmo”. Vocês também são – mas esse texto não é sobre vocês.